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segunda-feira, 1 de abril de 2019

Presas, 30 travestis dividem 1 cela e sofrem preconceito até para trabalhar

Um dia ensolarado faz caminho no pátio e ilumina os rostos de vários homens com camisetas cor de laranja. O “cenário encarcerado” que ocupa a imaginação sobre os presídios, ali não encontra confirmação, já que a maioria, naquela manhã, não estava nas celas. Alta, maquiada e com os cabelos loiros presos em um rabo de cavalo, Loira, como é conhecida, rasga o espaço com desenvoltura e parece não se importar com nada mais do que chegar aonde precisa.
No IPCG (Instituto Penal de Campo Grande), Loira, 33, como gosta de ser chamada (apelido de Rogéria), é uma das cerca de 30 mulheres transgênero a ocuparem uma cela específica para LGBTIs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais) no presídio. É, também, uma exceção que trilhou o próprio caminho de resistência para encontrar dignidade e respeito no presídio.
Não é o caso da maioria. A mesma discriminação que faz com que 90% das travestis e transexuais busquem a prostituição nas ruas – estimativa da (Antra) Associação Nacional de Travestis e Transexuais – é encontrada nos presídios, já que a maioria não trabalha por falta de aceitação dos outros presos.
Além do desemprego, o domínio das facções nos presídios, fator que tem crescido nos últimos anos, também promove aumento da divisão social carcerária. Um código rígido estabelecido pelos presos pertencentes a associações criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital), não aceita que eles convivam no mesmo espaço que pessoas LGBTIs.
O IPCG, ainda assim, é considerado um local mais seguro. Livre de facções até onde se sabe – chama-se esse tipo de presídio de “presídio de oposição” – a vida das travestis é, ali, um pouco mais tranquila. Exceção na maioria dos presídios brasileiros, elas podem dormir em celas específicas. Serem aceitas no trabalho, ainda assim, é difícil. Apenas 5 conseguiram.
É o que explica a chefe da Divisão de Promoção Social, Marinês Savoia. “A inserção no trabalho ainda não tem. É por conta da população, dos nossos internos que não aceitam. Os próprios internos não aceitam, com todo esse trabalho de palestras, temos umas quatro ou cinco já inseridas. A gente tenta, nós temos vários grupos com as técnicas que fazem esse tipo de trabalho, de aceitação, de falarem o que é, como é, e assim, devagarzinho”, relata.