“Não tem bala perdida” é regra da paz na fronteira, mas com alerta nos EUA - CANAL MS

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Campo Grande (MS),

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sábado, 25 de janeiro de 2020

“Não tem bala perdida” é regra da paz na fronteira, mas com alerta nos EUA

Domingo, 19 de janeiro. Uma fuga em massa de presos põe a fronteira entre Pedro Juan Caballero e Ponta Porã no noticiário do Brasil e do mundo. As informações vão desde o fechamento da Linha Internacional, que divide Mato Grosso do Sul e Paraguai, local da escandalosa fuga, ao deslocamento maciço de forças policias para a região. Quatro dias antes, a mesma fronteira entrou no alerta dos Estados Unidos, que elabora um “aonde não ir” em território brasileiro.Segunda-feira, 20 de janeiro. O sol ilumina a manhã em Ponta Porã, enquanto o malabarista de camiseta da seleção argentina exibe sua arte no semáforo; o frentista do posto de combustível cumprimenta, animado, os visitantes do carro com placas de Campo Grande; e a Linha Internacional segue como sempre: escancarada para toda sorte de comércio, dos perfumes ao tráfico.
É só caminhando por essas ruas que se entende a paz da “Princesinha dos Ervais”, o nome fantasia de Ponta Porã. Por lá, homens e mulheres, moradores e comerciantes, repetem a regra mais clara da fronteira: “Aqui não tem bala perdida”.
Essa ética particular, de que execuções só atingem quem “deve”, explica a paz de quem mora na cidade de 95.526 habitantes. Mas a regra é explicada por entrevistados que não podem dar nome completo ou aparecer em fotografias. Não que a cidade fronteiriça tenha a maior concentração de tímidos por metro quadrado, mas também faz parte da cultura de paz sem voz, que nos leva à reflexão se paz sem voz é paz ou medo?Num dos pontos em que a Linha Internacional em que MS e Paraguai mais se aproximam, uma comerciante conta que mora em Ponta Porã há 30 anos. “Graças a Deus, nunca tive problema”, diz, sem quere divulgar o nome. A parede do imóvel exibe a “cicatriz” de um tiro. Ela relata que já aconteceram execuções à esquerda e à direita de onde trabalha.
Para a mulher, resta claro que foragidos do presídio de Pedro Juan Caballero vão evitar a zona urbana de Ponta Porã. A dificuldade tem sido acalmar os parentes que moram no Paraná. “Eles ficam apavorados”, diz.
De costas para a porta, na loja que comercializa roupas, uma mulher trabalha concentrada para transferir as pérolas que ornamentam o decote de uma blusa para uma caixinha de costura. Aparentemente, a única medida de segurança é uma câmera. A mulher de 40 anos, em mais uma entrevista sem nome, diz que já foi assaltada na rua, uma situação de violência que poderia se repetir em qualquer cidade brasileira.
“As pessoas acham que aqui tem uma morte em cada esquina, que se mata por esporte”, afirma. Ela diz que a má fama chega a Assunção, capital paraguaia, para onde costuma viajar. “Quem não mexe com isso, não tem problema. Aqui todo mundo conhece todo mundo e sabe com quem mexe”, afirma. O “isso” citado por ela é o tráfico. Os entrevistados também não citam PCC (Primeiro Comando da Capital), que é substituído pelo genérico “aquela facção”.
Os moradores reclamam do tratamento dado pela imprensa, onde a cidade é mencionada como terra sem lei e sempre pedem à reportagem para que contem que do lado de cá da fronteira a vida das pessoas “de bem” segue tranquila.
Para 2020, Ponta Porã, a quinta maior cidade de Mato Grosso do Sul, tem orçamento de R$ 401 milhões. As principais atividades econômicas, lícitas, são agricultura, pecuária e comércio.