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Campo Grande (MS),

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quinta-feira, 30 de abril de 2020

Sob lágrimas de cinco pessoas, coronavírus levou pai de Karina

O colapso funerário vivido em Manaus, capital do Amazonas, desde o início da pandemia do novo coronavírus, agora representa um dos momentos mais difíceis da vida da fotógrafa Karina Barbosa de Alencar Oliveira, de 40 anos, que mora em Campo Grande. No último fim de semana, a Covid-19 levou o engenheiro civil aposentado Euler Arthur Mendonça de Alencar, aos 77 anos, pai de Karina e outros três filhos. Com uma média atual de 100 sepultamentos por dia, enterros noturnos e conflitos sobre agrupamento de caixões, Euler foi velado por pouco tempo sob olhar e tristeza de apenas 5 familiares, caixão fechado e uma dívida de R$ 2,8 mil abraçada pelos filhos para que pudessem ao menos enterrar o próprio pai.

O inferno que vive o Brasil diante da pandemia somado a dor de Karina fez ela desabafar. Numa entrevista em que a pausa se fazia necessária a todo instante para secar as lágrimas, em que o fôlego exigiu silêncio para ser retomado, a fotógrafa conta que hoje vive em pânico, com medo de mais alguém da família sair da vida sem despedidas, sem tempo para viver aquilo que se planeja.

“Quinze dias antes do meu pai morrer, eu perdi a minha tia por causa do coronavírus em Manaus. Agora meu pai morreu, e eu tenho meus irmãos lá correndo risco de vida. Está difícil demais suportar essa dor”, afirma. Karina também é amazonense e se mudou para Campo Grande há 10 anos. Mas a família continua toda por lá.

Primeiro, Karina se lembra do pai como um homem gentil, amado pelos amigos e responsável que buscou tomar os cuidados necessários em meio a pandemia. Em pouco tempo, o cenário na capital amazonense mudou. Muita gente na rua, sem acreditar nos riscos de uma pandemia, presenciou o início de um colapso.

“Meu pai tinha problemas de saúde, já havia tido um AVC, era diabético, mas estava com a saúde controlada porque se cuidava. Mas, mesmo com todo cuidado, ele foi contagiado pela doença”, diz. Na semana passada ele deu entrada no hospital com sintomas da doença. “O médico que atendeu ele disse que era grave e que era Covid-19”, conta. Mas Euler não teve tempo e faleceu na madrugada do dia 25 de abril. O atestado de óbito apresentou síndrome respiratória aguda e suspeita de coronavírus. Ontem (29), Karina recebeu o resultado, positivo para a doença.

O corpo do pai só foi enterrado na última segunda, depois de uma luta dos filhos para conseguir o serviço funerário, mesmo sem dinheiro. “Ficamos com uma dívida de R$ 2,8 mil para poder enterrar nosso pai, que nem teve todos os seus familiares por perto. Uma enorme tristeza”.

Com a conta em mãos, Karina decidiu vender todo o enxoval do filho nas redes sociais para levantar o dinheiro. “A única coisa que eu quero é ajudar os meus irmãos a pagarem essa dívida que já está sendo cobrada. Eles também não têm o dinheiro e estão lutando para sobreviver e não serem contagiados”, diz. Ainda que consiga arcar com as despesas da morte, o dinheiro não abranda o tormento de Karina, que defende o isolamento social como medida de prevenção.

“As pessoas que continuam na rua sem nenhuma necessidade ou cuidado estão ajudando a tirar vidas. Isso não é justo. Eu entendo que algumas pessoas precisam sair e trabalhar, mas essas também precisam tomar os cuidados, o restante, quem não precisa, deve ficar em casa. Manaus não tem mais condições de suportar tantas mortes. E o cenário está pior do que mostram as notícias”.

Na esperança que as pessoas tomem consciência sobre a gravidade do problema, Karina torce pela saúde dos irmãos, que tiveram contato com o pai. “Eu sei que ele (pai) está no plano espiritual melhor, mas a dor que fica no coração não passa, e não desejo essa dor para ninguém. Quero a saúde dos meus irmãos. Mas temos que lutar por ela. A saudade que hoje eu sinto de ouvir o meu pai, eu também não desejo para ninguém”.

Quem quiser entrar em contato com Karina para comprar o enxoval, pode falar com ela pelo Instagram Kaka Oliveira Desapegos.