Desiludido com promessas na cidade, há 6 anos Ronaldo mora com bichos sob ponte Ele diz que fugiu de casa aos 7 anos de idade e garante: "não sou vagabundo não" - CANAL MS

LEIA TAMBÉM

Campo Grande (MS),

Post Top Ad

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Desiludido com promessas na cidade, há 6 anos Ronaldo mora com bichos sob ponte Ele diz que fugiu de casa aos 7 anos de idade e garante: "não sou vagabundo não"

 A 30 quilômetros da área urbana de Campo Grande, Ronaldo Antônio Pereira vive sob uma das pontes da BR-262.  Já são 6 anos assim, no meio do mato e convivendo só com os bichos. Depois de muitas promessas não cumpridas, a fé na humanidade se foi, assim como a energia para tarefas triviais, como tomar banho. Até a vontade de viver não tem mais lugar na "caverna" criada por ele em meio ao vai e vem de veículos pesados.

De chapéu e óculos escuros, o homem que diz ter 50 anos sai do meio do mato e se aproxima avisando que a credibilidade de quem mora na cidade é baixa. “Até posso falar com vocês, mas não acredito em ajuda”. A desconfiança é justificada com histórias sobre pessoas que se aproximam do local oferecendo mundos e fundos, mas que na prática só deixam expectativas frustradas.

“Cada vez que eu vejo que é mentira, a esperança vai embora e junto vai a vontade até de tomar banho. Eu sempre falo que ninguém tem obrigação de me ajudar, então para quê fazer promessa? Você coloca expectativa em uma pessoa que já tá deprimida e quando não cumpre, fica a tristeza”, diz.

Sem vontade de viver, ele diz que perdeu as contas de quanto faz desde o último banho. (Foto: Marcos Maluf)

Lucido, Ronaldo relata que pescadores e pessoas desconhecidas aparecem rotineiramente. No meio dessas visitas, ele já perdeu as contas de quantos tiraram fotos de seus documentos dizendo que iriam conseguir aposentadoria e auxílio emergencial do governo.

Me levar até os lugares ninguém vai, você acha que alguém quer andar dentro do carro com gente como eu? Um me pediu para assinar uma procuração e eu não aceitei.

De volta à “civilização” - Durante os seis anos de ponte, duas formas de “resgate” apareceram. Ele conta que entre as ajudas oferecidas, duas foram mais fortes. “Primeiro me levaram para uma chácara e prometeram que ia ter televisão, celular. Dois dias depois foram tirando o que tinham me dado, aí resolvi voltar”. Questionado sobre querer voltar a morar na cidade, ele explica que a situação é mais complicada do que parece. “Eu tenho vontade de ter uma casa minha, tenho esse sonho. Agora, voltar para morar na rua não quero. Você dorme e pode acordar com um policial te batendo, alguém querendo te usar como banheiro, gente cuspindo em você. Sei como é, já vivi isso”. Aqui o perigo são os outros viventes (bichos), é só respeitar que eles te respeitam. Morando na rua da cidade é muito pior, tem humano e você nunca sabe o que vai acontecer.  Ronaldo Antônio Pereira, de 50 anos, mora debaixo de ponte há seis anos. (Foto: Marcos Maluf)