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Campo Grande (MS),

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sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Do condomínio de luxo, vírus passeou até chegar à Chácara dos Poderes

Era março de 2020 e a covid-19 acabava de ser declarada pandemia pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Em Campo Grande, o Sars-Cov-e ainda passeava na região dos residenciais de luxo, da "grife" Dahma, no Bairro Aparecida Pedrossian. Em maio e junho, depois de circular mais um pouco, ele chega finalmente à região do Tiradentes.

A partir daí, passeou e contaminou até que, em julho, início da curva mais acelerada, chegou a sua última fronteira, a Chácara dos Poderes, bairro do outro lado da BR-163. Nesta sexta, apenas Morada do Sol ainda não tem qualquer registro.

Os dados são do Sisgran Coronavírus, modalidade de rastreio por bairros, em tempo real, disponível a toda população. Conforme nota da Sesau (Secretaria Municipal de Saúde), o módulo coronavírus do Sisgran vai ser encerrado no sábado (15), com a justificativa de que, agora, passados cinco meses da pandemia de covid, todos os bairros têm casos.   A tecnologia a favor da Saúde – É graças a uma equipe de 7 pessoas que o sistema pôde ser colocado em operação desde março. É o que explica o coordenador de informação e tecnologia da Sesau, Hugo Luiz Silva do Valle, que conversou com a reportagem antes do anúncio da secretaria sobre o fim do módulo. Com ele, na Sesau, 3 pessoas operam a tecnologia. Hugo afirma que o vírus foi localizado em março na região do residencial Dahma e neste mês o bairro que mais registrava casos foi o Bairro Maria Aparecida Pedrossian. Em maio e junho, é na região do Tiradentes que ele surge pela primeira vez, e em julho, segundo o coordenador é a vez da região do Parque dos Poderes, onde fica o último bairro infectado até agora, a Chácara dos Poderes.

Em maio, o Vilas Boas era o bairro com mais casos, mas em junho e julho, quem preocupava pelos contágios era o Aerorancho.

Para Hugo, a tecnologia é uma boa aliada e pode ditar os rumos da Saúde Pública. O que chama a atenção, é que a equipe desenvolveu uma “I.A” (Inteligência Artificial), um robô, com uso de algoritmos em apenas duas semanas. Sozinho, esse robô atualiza o Sisgran coronavírus depois de alimentado com dados de uma planilha, que contém os casos.

"É pelo sistema de notificação, esus-br, do governo. Toda e qualquer suspeita de covid é notificada nesse sistema. Diariamente a gente trabalha essas informações, exporta do esus-br os notificados, armazena essas informações e diariamente o sistema do sisgran alimenta essa base”, explica ele.

O coordenador pontua que a parte “mais custosa” era o conhecimento, que eles já possuíam. “Se foi um caso foi notificado ontem, hoje já estará alimentado no Sisgran, porque ele é gerado junto com o boletim ou até no mesmo dia”, explica.

“A ciência de dados é fundamental nos dias de hoje. Se você mistura machine learning (o aprendizado da máquina, uma das formas de I.A) na ciência de dados com Saúde, a gente consegue até fazer soluções. Há várias tecnologias que podem apoiar. E é uma coisa que chega a ser importante para gestão tomar decisão em tempo hábil. Qual posição tomar”, relatou. Quem alimenta a máquina – É uma equipe incansável de Vigilância Epidemiológica em Saúde, da Sesau, com 25 pessoas, que ajuda o esus-br e outros sistemas de notificação a estarem sempre atualizado. Em contato direto com o pessoal da tecnologia e informação, essas pessoas rastreiam casos durante 24h em Campo Grande na URR (Unidade de Resposta Rápida). É o que explica gerente-técnica da URR, Luciana Miziara, que relata trabalho ainda mais difícil depois que a cidade se tornou cenário para transmissão comunitária do novo coronavírus. Além do esus-br, a equipe também utiliza o sivep gripe, sistema de dados do SUS de preenchimento obrigatório em qualquer atendimento de saúde para casos de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave).


“Quando o paciente é atendido por SRAG, hospitalizado ou vai a óbito, vamos supor na Santa Casa, a Santa Casa tem obrigação de notificar para a URR, que funciona 24h, disponível para profissionais de saúde ligarem e notificarem. A partir do momento em que tem conhecimento do caso, preenche uma ficha de notificação e têm que encaminhar no e-mail e com isso a gente alimenta o sivep, óbito a mesma coisa, suspeita, vamos alimentando no sivep”, explica Luciana.

Ela comenta que, com a curva acelerada, às vezes até a imprensa "notifica” a equipe. “Às vezes, acontece, a gente até brinca que a gente não tem bola de cristal, acontece notificação inversa, às vezes vocês da mídia notificam”, brinca. “No início, antes de decretar transmissão comunitária, a gente conseguia vincular os casos:  fulano pegou de ciclano”, disse.

É um trabalho cansativo não só pela quantidade, mas também pelo risco de exposição já que a equipe também vai até os casos. E não só os de covid-19, já que a URR já existia para os chamados “agravos em saúde”. Agora, o problema é que está 90% sobrecarregada com a covid, conta Luciana.

“A gente faz atendimento in loco, além de trabalhar e filtrar essas informações. Notificaram caso no Vila Almeida, a gente viabiliza essa coleta. Notificações informais, a gente vai atrás da informação”, esclarece Luciana.

Com o ritmo da vida praticamente normal e os problemas de estrutura que já precediam a pandemia, é praticamente impossível não haver subnotificação da doença.

“A gente não descarta. A secretaria tem feito trabalho árduo de sensibilização, temos solicitado, temos portaria ministerial que obriga a notificação, mais do que nunca, mas infelizmente acontece sim”, diz Luciana.

Falta medidas – É o que pensa o infectologista da Fiocruz, referência nacional, Julio Croda. O pesquisador elogia as medidas iniciais e cita o rastreio, mas afirma que até São Paulo, por exemplo, restringe a circulação quando o principal indicador, a lotação de UTIs, atinge 90%.

Operações da Guarda Municipal em cumprimento ao toque de recolher têm sido realizadas desde o início da pandemia diariamente, mas Julio comenta que não há comprovação científica de que o maior contágio se dê nas festas.

“Como aconteceu em tudo quanto é lugar, é através desses contatos que existem entre as duas classes, no trabalho, nas empresas. É bem geral e acontece no Brasil todo. É importante entender que em nenhum momento Campo Grande apresenta dados em termos dos pacientes que se infectaram. A maioria dos internados são idosos, mas em nenhum momento existe dados que justifiquem que o contágio é maior nas festinhas”, cita.

As pesquisas, cita ele, já demonstraram que o transporte público é um problema. Até porque, conforme vem mostrando IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), as classes mais altas têm condições de fazer o chamado home office, mas o pobre trabalha no setor de serviços ou na informalidade e precisa pegar ônibus. Primeiro mapa do Sisgran, quando a Capital registrava apenas 3 casos.