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Campo Grande (MS),

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sábado, 14 de novembro de 2020

Atentados, ameaças e apologia às armas: eleição está mais violenta? Para sociólogo, tensões locais podem se materializar com mais facilidade com incentivo ao armamento

 Tiros durante adesivagem, ameaça de disparos e atentado contra candidata. Fatos registrados no interior de Mato Grosso do Sul durante o período de campanha para as eleições municipais de 2020, levanta questionamentos quanto ao aumento da violência em clima de disputa. Para sociólogo, Paulo Cabral, os tiros são apenas a expressão máxima de uma cultura violenta do brasileiro, mas se agrava em contexto de apologia às armas.


Atitudes violentas podem ser verificadas no cotidiano, com agressões frequentes contra a mulher, episódios de racismo e até de abuso de autoridade. Uma violência estrutural. “A política no Brasil sempre foi marcada por violência. Então, não é um fato novo. Na realidade é uma violência que está na sociedade e nesse momento de política também surge”, explica.


Em eleições de caráter local, em que muitas vezes há maior proximidade com os concorrentes e eleitores, as tensões podem se potencializar. “Todas as tensões que se acumulam ao longo do tempo podem aflorar num momento desses. Sejam as paixões entre os correligionários de algumas candidaturas, sejam as rivalidades entre os candidatos. Nesse momento, há espaço para essa violência eclodir”, afirma Cabral.  O elemento novo neste ano, em relação as eleições municipais anteriores, seja a apologia armamentista. “É evidente que quando há favorecimento ao armamento, isto também favorece a possibilidade de haver mais eventos de violência. A arma é um artefato que facilita a expressão desta violência”, ressalta.


Só na última semana, foram registrados pelo menos três episódios envolvendo armas de fogo no Interior. No último domingo, um homem de 45 anos foi morto e outros três ficaram feridos durante evento eleitoral, na cidade de Coronel Sapucaia, distante 401 km de campo Grande. Investigações apontaram, no entanto, que o episódio tinha ligação com o tráfico.


Dois dias depois, a candidata a prefeita pelo MDB, Fabiane Silveira Galvão, 46 anos, teve o portão de casa metralhado em Ribas do Rio Pardo, 102 quilômetros da Capital.


Em Caracol, a 364 quilômetros da Capital, confusão levou um homem a sacar a arma no meio da rua. Os envolvidos na briga são de lados opostos na política. Dois candidatos disputam a eleição no município, Neco Pagliosa (PSDB), atual vice-prefeito do município, candidato que conta com o apoio do atual prefeito - Manoel Dos Santos Viais (PT), e Valeria Lopes Neto, pecuarista e candidata pelo DEM.  Atentado “fake” - Defesas da liberação do uso de armas podem ultrapassar os limites. O sociólogo cita como exemplo o falso atentado protagonizado pelo deputado estadual, Loeste Trutis (PSL), no início do ano revelado em operação da Polícia Federal realizada nesta quinta-feira. As investigações indicam que ele atirou contra o próprio carro, mas disse que havia sofrido um atentado.


“Tivemos a revelação de que o atentado é fake justamente para fortalecer a tese de que é preciso armar o cidadão de bem para que ele se defenda. O que é uma falácia. O interesse da indústria de armas e de munição apregoa essa narrativa, mas está tendo uma aderência muito grande. Tem muita a gente achando que tem mais é que armar as pessoas”.


Apesar da tentativa de golpe ao lançar a candidatura do PSL , o deputado não concorreu às eleições municipais em Campo Grande, mas colocou na disputa seguidores favoráveis ao armamento da população.


A candidata a vereadora na Capital, Juliana Gaioso (PSL), posou para as imagens de um de seus santinhos virtuais com uma arma na mão e na outra uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. Com mais de 4.200 seguidores no Instagram e 2.000 no Facebook, ela tem como bandeiras a religiosidade e a política armas.


Mais armas - O resultado deste discurso pode ser traduzido em números. Dados divulgados pela Polícia Federal, neste ano, aponta que o Brasil se arma três vezes mais do que se armou nos últimos cinco anos. Em 2020, 73.985 novas armas foram registradas de janeiro a junho deste ano em todo o país. Em Mato Grosso do Sul, foram 1.226 armas registradas até junho, três vezes mais do que foram registradas no mesmo período em 2019.