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segunda-feira, 8 de março de 2021

Oito de março: O Dia Internacional da Luta Uma reflexão sobre o que o dia de hoje significa na luta diária de todas as mulheres

 Mundo afora, o dia 08 de Março é conhecido como o “Dia Internacional da Mulher”. Anualmente, é comum ver homens entregando flores de plástico para suas colegas de trabalho ou companheiras. São postados diversos textos na rede social ao lado falando sobre a “força feminina” e como lidamos bem com certas situações, como somos ótimas esposas/mães, além de pessoas dizendo “feliz Dia da Mulher!” em qualquer ambiente adentrado por uma de nós. O que algumas pessoas não lembram é que, nesse dia, não há motivo algum para comemorar.  Sufragistas protestam pelo direito de votar nos Estados Unidos, em 1913 

A Origem do Dia da Mulher

Existem diversas hipóteses de onde ocorreu o primeiro Dia da Mulher, por qual motivo e por quê essa data, e não temos resultados historicamente conclusivos sobre isso, mas todos os fatos históricos que podem ter ajudado a instituir o 8 de Março como Dia da Mulher possuem uma coisa em comum: as mulheres estavam lutando. Seja em passeatas por melhores condições de trabalho (Nova York, 1909), ou contra a fome e a Primeira Guerra Mundial (Rússia, 1917), essas mulheres estavam buscando ser reconhecidas e tratadas como pessoas, procurando ter os mesmos direitos que os homens.

A data só foi instituída e chamada de “Dia Internacional da Mulher” pela ONU em 1975. Desde então, esse dia marca um encontro anual entre mulheres que procuram lutar pelos seus direitos, tanto nas redes sociais quanto indo para atividades e encontros com outras mulheres.  

A desigualdade no mundo dos games

Como o assunto por aqui é a luta por melhores condições, os games, que possuem uma comunidade majoritariamente machista e misógina, não poderiam ficar de fora. Ainda hoje, as mulheres são tratadas como objetos pelas desenvolvedoras, que focam em seus atributos físicos para atrair novos jogadores. As mulheres que jogam online sofrem assédio e ameaças constantemente, além de serem impedidas pelo sistema (social e, muitas vezes, de como o cenário competitivo do jogo foi desenvolvido) de participar de competições junto aos homens. 

Recentemente, uma jogadora de 19 anos foi assassinada por um homem que conheceu nos jogos online. Redigi um texto falando sobre como a misoginia dentro dos games traziam consequências terríveis como esta para a vida real, e os comentários não podiam ser piores. “A garota foi burra de ter ido até a casa de alguém que não conhecia”; “Ela foi assassinada porque mereceu”; “As mulheres hoje em dia são privilegiadas na sociedade” entre outros, foi o tipo de coisa que eu fui obrigada a ler.   No fim, o meio dos games e Esports é um dos que mais desumaniza mulheres diariamente, sendo tratando-as como objetos ou simplesmente ignorando sua existência e suas particularidades. Em 2019, a influenciadora Gabi Catuzzo foi demitida depois de sofrer assédio em suas redes sociais e declarar em seu Twitter que “É por isso que homem é lixo [referindo-se ao assédio sofrido]”. Houve uma mobilização nas redes sociais pelos homens consumidores da marca, que se sentiu pressionada a tomar uma atitude. Podendo aplicar uma punição branda na influenciadora ou educar seu público sobre o assédio, a marca optou por uma quebra de contrato.

Em 2020, a apresentadora Isadora Basile, após pouco mais de um mês de contratada pela XBOX, teve seu contrato quebrado pela Microsoft após sofrer assédio nas redes sociais. Entre os comentários, os mais diversos tipos de ofensa: desde o questionamento da escolha de uma mulher para uma posição tão importante, passando pela afirmação de que ela ‘não tinha conhecimento o suficiente para ocupar tal cargo’, até ameaças de estupro e morte. Mais uma vez, a marca preferiu, ao invés de tentar educar seu público, punir a vítima. Pouco tempo depois do ocorrido, a Microsoft emitiu uma nota afirmando que a demissão da influenciadora não foi por conta da reação da comunidade, mas muitas pessoas não acreditam nessa versão.

E esses são os casos que vêm a público. Se fôssemos somar todas as denúncias de assédio dentro das grandes organizações, (como o caso do próprio CEO da Riot Games — que continua no cargo até hoje, enquanto está sendo investigado) desvalorização do trabalho feminino, exploração das atletas mulheres, que constantemente afirmam receber menos que um salário mínimo — isso quando recebem algum salário, entre outros casos, eu passaria (ainda mais) horas redigindo esse texto.  

O que o dia de hoje realmente significa para nós

Sendo assim, eu não vejo motivos para comemorar algo, para receber ‘parabéns’ por ser mulher. Em 7 anos como gamer, a melhor situação que eu passei foi quando os homens me xingavam por eu jogar mal e ficava só nisso. E não me venha com essa história de que mulher ganha skin ou benefícios nos jogos apenas por ser mulher, isso só existe na cabeça dos homens. Porque, na realidade, a gente ganha hate, ameaça, machismo, misoginia, desvalorização.

Então eu espero que hoje seja um dia no qual possamos todas olhar para dentro de nós mesmas e questionar “o que eu posso fazer para mudar isso?”. Que hoje seja um dia para nos lembrar que não se conquista nada sem luta, e que a força que as mulheres que vieram antes de nós possa nos inspirar a batalhar pelos nossos direitos, seja dentro do universo dos games ou fora deles. Que possamos deixar as diferenças de lado e nos unir em prol de uma única causa: a nossa causa. 

E se você que está lendo isso for homem, eu desejo que esse não seja mais um 8 de março onde você chega para as mulheres próximas a você e fala um “feliz Dia das Mulheres” por obrigação e no resto dos dias toma ações que minimizam ou debatem a nossa luta. Tente fazer diferente, perguntar o que você pode melhorar, buscar entender onde errou. Procure apoiar suas amigas e tentar ser um pouco, mesmo que seja só um pouquinho menos machista nas suas falas, nos seus pensamentos e no seu dia a dia. Reflita e melhore.

Feliz dia Internacional da Luta pra todas as mulheres!


Juliana "Moondded" Alonso entusiasta de Esports desde 2013. Fundou a Sakuras Esports, em 2018, e depois disso não parou mais de falar e lutar pelo cenário feminino e pelas mulheres nos Esports. Você pode acompanhar mais sobre ela em @moondded nas redes sociais.