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quinta-feira, 1 de abril de 2021

Médica chora ao ver "vida normal" fora de UTI, onde intuba 100% dos pacientes Médica de UTI há 7 anos diz que intubação beirava 30% e hoje é feita em 100% dos pacientes por conta da covid

Quando Ana Alvarenga escolheu trabalhar em terapia intensiva, após se formar em Medicina e fazer duas residências, via o ambiente, que para tantas pessoas pode parecer hostil, como o local onde teria condição de mudar o curso da vida do paciente.


"É algo muito visível, porque é imediato. Uma tomada de decisão reflete na recuperação do paciente, além de ter tudo isso, embora pareça que é um ambiente muito frio, é onde a gente consegue ver as pessoas no seu momento de maior fragilidade, e onde me sinto mais importante também do ponto de vista amoroso, porque neste momento eu sou o único vínculo de afetividade que ele tem".


As palavras doces saem de uma médica nova na idade, 32 anos, mas que já acumula quase oito de experiência em terapia intensiva e hoje é supervisora da UTI do Hospital da Cassems. Foi pelas mãos de Ana e toda equipe de UTI do hospital que o primeiro paciente com covid no Estado, ainda em março de 2020, foi internado sob cuidados intensivos. Não que em um ano a dedicação dela tenha mudado, mas o que Ana descreve dentro do contexto da pandemia é uma sobrecarga de horas de trabalho, o medo, a intubação na maioria dos pacientes, o número avassalador de mortes e até mesmo a mudança no perfil dos internados.  O primeiro aspecto que ela viu mudar foi a vestimenta, os EPI's nunca foram tão fundamentais quando pacientes com covid começaram a lotar os hospitais, depois veio o afastamento do convívio familiar por parte dos profissionais e a unidade passou a ver óbitos diariamente. Por ser uma doença muito agressiva, a covid aumentou muito a mortalidade. Embora todo mundo ache que UTI só tem óbito, não era assim, mas a gente viu essa mudança e foi muito difícil passar a conviver com a morte muito mais próxima", explica Ana Alvarenga.


Portadora das notícias que ninguém quer dar, a médica também viu o quão difícil a covid deixou a participação dos profissionais nos óbitos. "A gente se sente a única ligação do paciente e é a única ligação do paciente e da família, é difícil noticiar e não poder dar um abraço".  Fora os sentimentos, a carga horária de plantões passou a exigir o físico dos profissionais. Os 10 leitos que anteriormente Ana supervisionava se transformaram em 48, e a escala médica, por mais que novos profissionais tenham sido contratados, nunca é suficiente diante de tantas internações. "A gente tinha plantão de 6h que viraram 12h e até 24h, essa questão do desgaste físico se modificou com tudo isso", conta.


Intubação - Na rotina da UTI, antes da covid, a média de pacientes intubados era de 30%, número que subiu para 100% devido à gravidade da doença. O procedimento que se tornou mais popular na pandemia também gera medo nos pacientes e em familiares, mas não deve ser visto como sentença de morte.


"Não é um procedimento que significa óbito, na verdade ele é uma chance da pessoa sobreviver, é um tratamento que tem para que aquele paciente possa sobreviver", explica Ana.


O processo demanda cerca de 1h para preparo, onde antes do paciente ser sedado, é explicado tudo o que vai acontecer. "É muito importante que ele entenda o que está acontecendo. Nós conversamos, explicamos e damos nossas palavras de esperança. Costumo falar que aquele é um procedimento para que ele possa melhorar mais rápido", compartilha. Sendo mais técnica, a médica diz que a intubação é feita para que o pulmão descanse até a inflamação melhorar e ele possa voltar a respirar sozinho mais adiante. Do outro lado, no leito, ela enxerga o medo tomando conta e frisa novamente que a intubação é um meio de salvá-lo.

"Quando a pessoa tem necessidade de ser intubada, sim, o risco de morrer é maior, mas não pela intubação e sim porque a doença é mais grave e este é o tratamento necessário para que ele tenha chance de viver. Isso costuma acalmar a pessoa", revela.


Depois do primeiro impacto, muitos pedem para falar com a família como se fosse a despedida. De alguns, a chamada de vídeo é mesmo o último adeus.


Perfil - Não é novidade e vem sendo reforçado quase que diariamente pelos médicos. Ana também enfatiza que tem visto pacientes cada vez mais jovens precisarem ir para a UTI. "Nos jovens o vírus tem se comportado como uma doença mais agressiva de fato, e isso é bem preocupante".


Um dos pacientes dentro da faixa etária mais jovem foi ainda em 2020, quando o rapaz de 30 e poucos anos foi internado deixando suspenso os planos para um casamento que já estava marcado. "Ele tinha exatamente a mesma idade do meu noivo, casamento marcado, a noiva era estudante de Medicina, então era uma história muito próxima da minha e ele foi o primeiro jovem. A gente até então estava acostumado com uma faixa etária maior, que acaba que você consegue aceitar um pouco mais fácil quando tem um idoso grave, diferente de quando é jovem e se tem a vida inteira pela frente", reflete. Em estado grave, o paciente precisou não só ser intubado como fazer hemodiálise. Foram 40 dias de internação até a alta e ele saiu do hospital bem. "Esse caminhar da doença dele, passar por isso junto com ele e com a família foi muito significativo para mim, senti como se fosse da minha família. A gente tenta não se envolver tanto para não sofrer, mas é impossível, porque isso também faz parte do tratamento".

E é diante dessa entrega que Ana diz ter chorado muitas vezes saindo de um plantão a caminho de casa. "Tiveram dias que eu saí chorando pra casa vendo as pessoas levando uma vida normal, em bares, porque eu sei do meu sofrimento e dos meus colegas de estarmos passando por tudo isso. Eu vejo diariamente o sofrimento de pacientes e de suas famílias e a nossa entrega, tanto dos profissionais, como das famílias, sabendo que outras pessoas poderiam ter ajudado a evitar que isso estivesse acontecendo, me sinto desrespeitada", diz indignada.


O tom de revolta ainda é maior quando Ana aponta que se cada um estivesse fazendo a sua parte, que nas palavras dela não é nenhum pouco difícil, talvez esse sofrimento não estaria acontecendo na vida de tantas pessoas.


"A gente está se doando e colocando nossa vida e dos nossos familiares em risco para as pessoas continuarem fazendo coisas que são desnecessárias. A gente entende que tem pessoas que de fato precisam trabalhar e nossa questão não é com elas, mas com quem está fazendo festa, não aceitando o uso de máscara e distanciamento social. Essas pessoas também são responsáveis pelo sofrimento que estamos vendo diariamente". Sem UTI - Na chamada linha de frente há um ano, a médica já começa a prever, com angústia, que se a contaminação continuar na velocidade em que está, pode ser que os médicos tenham de "escolher" para quem vai aquela vaga de UTI, denominada necessidade de priorização.


"Por mais que a gente tente abrir leitos, temos duas questões: não temos mais espaço físico para essa abertura e as escalas não só médicas, mas de enfermagem e fisioterapia, que uma UTI precisa, está no máximo do limite. Essa classificação por prioridade é muito difícil para o médico e é uma responsabilidade que não deveria ser nossa, não deveria ser de ninguém", desabafa.