Com paralisia grave, Sofia viaja mil quilômetros para conseguir vacinar em MS - CANAL MS

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Campo Grande (MS),

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quarta-feira, 7 de julho de 2021

Com paralisia grave, Sofia viaja mil quilômetros para conseguir vacinar em MS

 Um direito que seria de todos, mas para Sofia custou uma viagem de quase mil quilômetros contando só a vinda. Com paralisia cerebral grave, a adolescente de 16 anos viajou de carro de São Paulo até Campo Grande para se vacinar aqui. A Capital abriu para adolescentes com comorbidades sem exigir comprovante de residência.


Sofia tem paralisia cerebral grave do tipo quadriplégica e com comprometimento respiratório e circulatório. Desde o início da pandemia da covid-19 estava em isolamento rigorosíssimo, inclusive sem fazer as terapias necessárias, o que acarretou prejuízo e lhe trouxe dores. "Eu já havia feito o cadastro na semana passada quando li que o prefeito não pediria comprovante de residência. Eu não queria falsificar nenhum documento. Minha intenção era que minha filha tivesse o que era justo, mas sem burlar nada", explica a mãe de Sofia, a jornalista Denise Crispim. Na tentativa de ajudar Sofia a se vacinar, Denise conta que recebeu propostas de comprovantes de residência de outros municípios sul-mato-grossenses, mas negou todos elas.


Por achar que seria muito arriscado trazer Sofia de avião, mãe e filha vieram de carro junto de um amigo que já foi vacinado e tomando todos os cuidados. "Paramos para dormir em Castilho, na casa de uma tia, e ainda assim, de máscara", conta Denise. No total, foram 15h de viagem até chegar aqui.


A luta de Denise para ver a filha vacinada começou assim que a vacina da Pfizer foi aprovada para adolescentes no Brasil. "Temos pressionado deputados, senadores, falado na imprensa. Desde que chegaram os primeiros lotes da Pfizer no Brasil, em maio, a gente pede para as autoridades para incluírem esse grupo", narra.


Como só Mato Grosso do Sul havia incluído o grupo na vacinação, por pressão de um exército de mães que brigaram muito por isso, Denise colocou Sofia no carro e veio. "Enquanto não sai no PNI [Plano Nacional de Imunização], falta vontade política", diz. Isso porque São Paulo foi o primeiro local onde a vacinação começou, no dia 17 de janeiro.


A mãe fez o cadastro de Sofia em Campo Grande, confirmou com a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) que não precisaria do comprovante de residência e preparou as malas.


Ao chegar aqui, na última segunda-feira (5), descobriu que o calendário não contemplava mais os adolescentes. "Liguei na ouvidoria, expliquei, disse que ela tinha dor e que precisava muito retomar as terapias. Eu não menti, contei que todo tratamento dela era em São Paulo", relata a mãe. Preparada para ficar o tempo que fosse necessário, a mãe resolveu arriscar uma ida ao posto de saúde e nessa terça-feira (6), quando os funcionários viram a menina na cadeira de rodas, abriram uma exceção. "Decidiram vaciná-la, mesmo fora do cronograma. Foi um gesto de humanidade", diz a mãe.


Sofia não tem lesão cognitiva, compreende a pandemia e estava muito ansiosa para vacinar. "A emoção eu ainda estou processando, porque a vacina dela veio junto com a aprovação na Câmara do pedido de urgência para a votação do PL 2112", comenta Denise.


A aprovação deste projeto fará com que todos tenham o direito da vacinação reconhecido. "Porque não é justo ter que viajar, sabe? Muitos nem conseguem, como adolescentes que dependem de oxigênio", exemplifica. A gravidez de Denise era gemelar, Sofia e a irmã gêmea nasceram prematuras. A outra não resistiu e morreu com 40 dias de vida. Já Sofia enfrentou quase três meses de UTI e teve cinco sepses.


"Por isso meu pânico de uma doença que poderia nos fazer reviver todo esse universo. A pandemia trouxe o temor da morte e da UTI para todas as casas, mas para quem já viveu isso e tem um risco maior de agravamento, é um pesadelo".